Segunda-feira, 28 de Maio de 2007

Em Timor “os maiores desafios virão a seguir às legislativas”

Portugal vai aumentar a cooperação nos domínios da segurança e da justiça. A ONU vai participar no diálogo entre as partes que entraram em conflito no ano passado

 

Atul Khare veio a Lisboa pedir mais cooperação com Timor Encontrou-se com o Presidente da República e o primeiro-ministro, com o antigo Presidente Jorge Sampaio e com os ministros dos Negócios Estrangeiros, Defesa, Justiça e Administração Interna. 

 

PÚBLICO - Acaba de falar com o Presidente e membros do Governo. O que combinou com eles?

ATUL KHARE - Em todos os encontros verifiquei que temos impressões comuns: estamos muito contentes com a forma como a situação tem evoluído nos últimos cinco meses.

 

Fizeram uma avaliação do processo eleitoral em Timor?

Sim, e achamos encorajadora a forma como decorreu a eleição de 9 de Maio e como José Ramos Horta foi eleito.

 

E por causa dessa avaliação positiva foram dados novos passos no âmbito da cooperação entre Portugal e Timor?

Portugal tem sido um verdadeiro amigo de Timor-Leste. Antes da independência, durante o período de transição, e, claro, agora. No futuro, a ajuda portuguesa continuará a ser decisiva. 

 

Em que áreas será mais importante?

Temos de nos concentrar em quatro áreas fundamentais: o sector da segurança, o sistema judicial, a educação e uma área que eu designaria, genericamente, como de desenvolvimento. 

 

Na segurança haverá alterações em relação ao que Portugal já faz?

 

Eu pedi para continuar a presença da GNR e PSP, que estão a fazer um trabalho inestimável, mas expliquei também ao Governo quais são as necessidades imediatas de Timor, designadamente a formação e treino das forças policiais. Portugal concordou em redobrar o seu esforço nesse campo específico, enviando pessoal especializado para treinar a polícia timorense. Perguntei concretamente ao ministro da Administração Interna se a actual cooperação poderia ser expandida, se ele poderia enviar pessoal especializado na luta contra o narcotráfico e em distúrbios urbanos. Ele prometeu ajudar.

 

Na área judicial, a cooperação será também alargada?

Sim, aí o papel de Portugal é fundamental e insubstituível, uma vez que Timor escolheu adoptar um sistema judicial praticamente igual ao português. Será necessário enviar mais juízes, delegados do Ministério Público e investigadores, mas também pessoal de apoio. Terá de ser o pacote inteiro.

 

Uma das tarefas a realizar pelas novas autoridades será a de prosseguir os julgamentos dos responsáveis pela crise de 2006. Portugal terá um papel directo?

A ONU, a pedido do Governo, fez uma estimativa de quanto custará levar até ao fim as recomendações da comissão de inquérito independente, nomeadamente os processos contra os implicados. Custará nove milhões de dólares. 

 

É isso que Portugal terá de pagar?

É o que a comunidade internacional terá de fornecer, em dinheiro e géneros, para que possa ser resolvido judicialmente o problema da crise dos "peticionários".

 

A ajuda de Portugal é crucial para a resolução dessa crise?

Sim, a ajuda de Portugal é crucial. E este aspecto é dos mais importantes. Não é possível haver uma vida política normal, se se mantiver o clima de impunidade. 

 

Mas não se trata apenas de fazer julgamentos. Alfredo Reinado continua em liberdade, proferindo ameaças. Railos, que durante a crise recebeu armas para matar opositores do Governo, participou na campanha de Ramos-Horta.

Sim, mas eu espero que muito em breve o problema do major Reinado seja resolvido. Acredito que ele acabará por se entregar, o que seria melhor, para todos, do que ser capturado pelas Forças Internacionais de Estabilização (ISF). Na última operação para o apanhar morreram cinco pessoas. 

 

O que se diz em Timor é que as ISF decidiram não o perseguir mais, porque alguém está a negociar a sua rendição, para o momento oportuno...

Não me parece. Se as forças internacionais o pudessem capturar, já o teriam feito. Em Timor, quem quiser fugir e esconder-se nas montanhas poderá fazê-lo muito tempo. Que o digam os guerrilheiros que resistiram à ocupação indonésia, como Xanana.

 

Mas para além dos processos, a comissão recomendou o diálogo para resolver a crise dos "peticionários". A ONU vai estar envolvida?

 

Sim. Todos têm de estar envolvidos. Em Timor, é preciso haver sempre cooperação entre todos. O diálogo será um dos desafios dos novos Presidente e Governo, mas a ONU terá um papel importante, designadamente na educação dos agentes locais, que precisam de aprender a resolver os problemas de maneira pacífica e democrática.

 

E sente que tem sido bem sucedida nesse papel educativo?

Sim. Eu próprio tenho feito reuniões com os líderes dos vários partidos, falando-lhes, por exemplo, da importância de ser oposição, num regime democrático.

 

É fácil distinguir "oposição" e "resistência"?

Estão a aprender. E isso é ainda mais pertinente nas próximas legislativas do que foi nas presidenciais. Nas legislativas, o partido que perde tem a responsabilidade de constituir a oposição, uma espécie de "Governo-sombra", que tem de apresentar alternativas às políticas. 

 

Houve muitas irregularidades nas presidenciais. Teriam sido válidas com os padrões normais, digamos, de um país europeu?

Sim. Nós considerámos que as irregularidades não foram suficientemente graves para... 

 

"Nós", quem? A ONU? Não terá sido juiz em causa própria, uma vez que, de certa forma, o país é uma "criação" vossa?

Não. Mas uma coisa é a validação técnica e outra, mais importante, é a do povo. Se os timorenses aceitaram os resultados, elas estão validadas. Poderiam ter sido tecnicamente perfeitas e não aceites.

 

Todo o processo de campanha, votação e contagem vai ser mais complicado nas legislativas.

Sim, vai ser mais difícil, mas estou certo de que vai correr bem. Pelo menos até à votação. Depois é que podem ocorrer problemas e é preciso estar muito atento. É mais um desafio. Mas o maior de todos será o das novas autoridades eleitas. Serão capazes de resolver os problemas do país? 

 

Está em Timor desde 2002...

Mas saí em 2005...

 

E voltou em 2006, por causa da crise. Acha que foi uma irresponsabilidade da ONU ter abandonado o país?

Não foi abandono, foi diminuição. 

 

Uma diminuição irresponsável?

Estávamos demasiado optimistas. 

 

Estão agora mais realistas? O mandato vai ser prolongado?

Em Fevereiro de 2008 terei de fazer uma avaliação e apresentar as minhas recomendações. Ainda é cedo para prever.

 

Fonte: Público

Data: 27-05-07

Pág. 20+21

Autor: Paulo Moura

Por Zito Soares às 08:19
| Comentário

»Setembro 2011

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
23
24
25
26
27
28
29
30

»Posts Recentes

» Que substituirá a Social-...

» Timor-Leste: MARI ALKATIR...

» Timor-Leste: INDONÉSIA VA...

» Quem derrubou as torres e...

» De St. Austell para Oxfor...

» Os encantos de Coimbra

» Memória da ocupação de Em...

» Memória da ocupação de Em...

» Memória da ocupação de Em...

» Memória da ocupação de Em...

»Arquivos

blogs SAPO

»subscrever feeds