Sexta-feira, 18 de Maio de 2007

Reflectir e comemorar

Maria Valentina da Silveira Machado

 

ERA MINHA intenção continuar hoje a reflectir, como lusófona portuguesa, sobre toda a temática subjacente à tese apresentada pelo professor doutor Santos Neves proferida em Fevereiro último no Congresso da Lusofonia. Porém, os acontecimentos lusófonos, ocorridos nesta semana, obrigam-me a interromper, por uma semana, as reflexões que o citado documento me tem suscitado.

Com efeito foram vários, ainda que de importância diferente, os acontecimentos que passo a enumerar e a comentar.

Na primeira linha, encontra-se, obviamente, a eleição presidencial em Timor. Foi a expressão inequívoca da vontade do povo timorense, que deu uma vitória tão expressiva a Ramos Horta, internacionalmente prestigiado, a todos os títulos. Ninguém como ele tem tantos conhecimentos da importância das relações diplomáticas na promoção do seu país, pois foi ele quem, durante a ocupação e quando Xanana Gusmão se encontrava detido, quem mais defendeu ao nível das instâncias internacionais o direito à independência do povo de Timor; foi ele quem, desde o início, instou a tempo e fora de tempo, por aquele direito e fê-lo de uma tal maneira que, juntamente com D. Ximenes Belo, recebeu o galardão de Prémio Nobel da Paz.

Foi o reconhecimento por parte do seu povo de que ninguém como ele, no momento presente, poderá desempenhar melhor as funções de Presidente da República do mais recente país mundial.

As suas declarações deixam antever que Timor vai alcançar a Paz pois ele, acima de tudo, como disse, está empenhado na coesão nacional, e para tal se propõe um bom relacionamento com todos os partidos políticos Permita Deus que todos os eles aceitem as suas propostas e, como ele, pretendam trabalhar em prol de todo o povo, mormente dos mais desprotegidos.

Mas para que esta vitória alcance todos os seus objectivos, é necessário que, após as legislativas que se aproximam, a coabitação seja perfeita, de modo que não haja divergências entre o Presidente da República e o Governo que vier a ser empossado. Em Timor, como em Portugal o Chefe de Estado não governa mas pode apoiar o Governo na medida em que este precise do seu apoio. Lá, como cá, o Chefe do Estado é o garante da democracia e da Constituição e exerce toda uma magistratura de influência de que Timor tanto precisa. Não se pode esquecer que Timor vive há mais de um ano num grande clima de instabilidade, que originou um retrocesso no desenvolvimento democrático.

O povo de Timor, aquando das eleições legislativas, tem de ter o mesmo bom senso, a mesma calma e dignidade e saber escolher o programa e também a pessoa que mais se coadunará ao desempenho do cargo de primeiro-ministro. E arrisco dizer que vai ser mais difícil do que foi para escolha do Presidente da República.

De qualquer forma o que é preciso é que os timorenses, ordeira e democraticamente, exprimam o seu voto de modo que saibam escolher aquele que mais garantia de êxito lhes pode dar. Que mais uma vez haja bom senso!

0 segundo acontecimento que pretendo considerar, dada a sua importância e eventuais consequências, foi a Conferência Internacional do Ensino do Português, que se realizou em Lisboa de 7 a 9 do corrente no Centro Cultural de Belém e do qual, como já vem sendo hábito, a comunicação social muito pouco disse.

Com efeito, teses como "ensinar um valor, perseverar uma herança", "o português como língua de conhecimento", "o ensino do português em contexto multilingue", "para além da literacia a problemática da literatura" ou da "língua como pátria",entre outros temas de igual interesse, todos tratados por especialistas de méritos reconhecidos, são um sinal de que finalmente se começa a acordar para os problemas com que nos debatemos e que têm passado ao lado na nossa vida quotidiana.

Um outro acontecimento a que igualmente a comunicação social não deu o mínimo realce é a inauguração a 12 do corrente da Casa da Lusofonia, espaço cultural em 3 pólos, com sede em Lisboa e cujos objectivos são a promoção da Lusofonia e Língua Portuguesa e a convivência cultural entre os lusófonos.

É uma iniciativa da sociedade civil apoiada pela CPLP. São seus promotores a ONG Etnia -Cultura e Desenvolvimento, a Escola Secundária Camões e a Junta de Freguesia de 5. Jorge de Arroios.

É a todos os títulos uma iniciativa muito louvável, e o facto de partir de uma parceria criada na sociedade civil dá-nos a esperança que outras iniciativas do género possam vir a surgir junto das comunidades de emigrantes oriundos de Países Lusófonos, onde quer que se encontrem.

Aliás é objectivo da Etnia fundar uma Casa da Lusofonia em tidos os oito países constituintes da CPLP.

Esta iniciativa, se for levada a cabo em parceria com as diversas comunidades espalhadas pelo mundo, pode colmatar as dificuldades que os Governos têm tido para a promoção da Língua Portuguesa e da Lusofonia junto das referidas comunidades.

0 projecto intitulado `Terminemos este conto" destinado a jovens lusófonos dos 14 aos 18 anos e residentes nos diversos países lusófonos é promovido pela CPLP/ IILP/ União Latina. Trata-se de um projecto que merece todo o apoio por parte dos respectivos governos e é bem demonstrativo de que a promoção e divulgação da Língua Portuguesa, objectivo primeiro do IILP, como prometeu há tempos a sua dirigente máxima, segue em frente contra ventos e marés e apesar de todas as dificuldades com que aquele se tem confrontado.

Em cada país será constituído um júri que solicitará a um autor de renome que escreva o início de um conto que posteriormente será continuado e terminado por cada um dos concorrentes individualmente.

Os vencedores de cada um dos países terão como prémio uma viagem a Portugal onde participará, conjuntamente, de um programa de intercâmbio então previamente elaborado. 0 vencedor português terá como prémio uma visita a Cabo Verde.

Como se vê tratase'de uma iniciativa que resulta de uma parceria entre a CPLP, através do IILP e da União Latina, que merece todo o apoio não apenas dos Governos, mas especialmente das escolas dos diversos países.

Espera-se que o mesmo seja devidamente divulgado, não apenas através de eventuais canais oficiais mas, sobretudo, pela comunicação social, pois é um projecto que contribui para o ensino e divulgação da língua Portuguesa e da Lusofonia.

Será que ter-se-á de dar um prémio à comunicação que informe devidamente sobre projectos lusófonos?

Igualmente merece a nossa atenção a deslocação da Comissão de Negócios Estrangeiros de Angola à sede da CPLP, onde tiveram uma reunião de trabalho com o secretário executivo da mesma e seu adjunto, de cuja agenda de trabalhos constou: a institucionalização da Assembleia Parlamentar da CPLP, tendo-se chegado ao entendimento de que é urgente tal institucionalização, o qual contribuirá para uma maior dinâmica da CPLP.

Um outro tema tratado diz respeito ao Acordo Ortográfico que, por seu turno, é ainda uma questão indispensável para a divulgação da Língua Portuguesa.

Como é sabido, tal acordo tem causado muita polémica, porquanto há quem entenda que tal acordo por si só fere de alguma forma a soberania própria. É evidente que essa polémica diz respeito à distinção existente entre o português brasileiro e o português europeu, este comum também em África.

Tal situação arrasta-se há muitas dezenas de anos e urge chegar de facto a um acordo e à sua implementação.

Outros dois aspectos constantes da agenda de trabalhos e que merecem alguma reflexão são a cooperação entre os Estados-membros em relações multilaterais e a circulação de pessoas.

Uma e outra têm merecido da minha parte a reclamação sempre da urgência da análise da situação e a adopção de medidas de modo que essa cooperação e nela a circulação de pessoas decorra com perfeita visibilidade de modo que não apenas os Governos, mas as populações sintam que no seu conjunto têm um estatuto próprio que lhes dá benefícios específicos com influência nas suas vidas quotidianas.

Tenho dito e tenho escrito que não entendo que os lusófonos em Portugal não tenham um estatuto pelo menos idêntico ao dos naturais da UE. Tenho defendido que, no que diz respeito à imigração, aqueles deveriam gozar de um estatuto diferente, pois não podem ser considerados como quaisquer outros estrangeiros.

Por último, não quero deixar de referir a Festa de Finalistas da ULHT, que teve lugar no passado dia 12, no campus universitário.

De fixar três questões: a primeira, a elevada percentagem de alunos africanos, nomeadamente nos cursos de Ciência Política, Gestão de Empresas e Turismo; a segunda, a frase muito feliz do celebrante da Eucaristia quando, dirigindo-se aos finalistas, afirmou ter a certeza de que estavam todos bem preparados para enfrentar as diversas dificuldades que irão enfrentará que serão dignos do País que fomos, dos países que hoje somos e que seremos com a sua intervenção competente e empenhada; em terceiro lugar, a alegria irradiante de todos, europeus e africanos, que são a garantia da Lusofonia que se vive na ULHT que, como referiu o administrador, põe em prática um ensino e uma vivência de qualidade em liberdade, em justiça e solidariedade.

E mais uma vez me interrogo de qual o futuro dos nossos finalistas num mundo globalizado em que é preciso ser dos melhores para se poder singrar.

Se quanto aos africanos não há que temer, porquanto o mercado de trabalho dos diversos países tem imensas oportunidades e certamente todos irão ter o seu lugar, o mesmo não se poderá pensar dos portugueses onde os lugares escasseiam e onde, ano após ano, muito poucos são aqueles que conseguem alcançar um emprego na área para que estudaram e onde se formaram para servir o bem comum. Quantas expectativas goradas, quantos sonhos sem concretização. E se é preocupante relativamente aos mais jovens, mais grave é ainda no que respeita aos que fizeram toda a sua formação nos cursos pós-laborais, com tantos sacrifícios de toda a ordem. Estes porque, regra geral, têm família constituída, nada mais lhes resta que lutar aqui em Portugal pela concretização dos seus sonhos e justas ambições; aos mais novos, aos que ainda não têm a sua vida familiar constituída, por que não avançar e procurar noutros países lusófonos aquilo que Portugal, por ora, não lhes pode oferecer?

 

Fonte: Semanário

Data: 18-05-07

Pág. 10

Por Zito Soares às 08:49
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