Quinta-feira, 17 de Maio de 2007

A vitória do sonhador

Ramos-Horta, ex-primeiro-ministro, quer reforçar os poderes da Presidência. Para conseguir governar…

 

Quando um homem mundano como Ramos-Horta se candidata a um cargo político em Timor-Leste, sabe, melhor do que ninguém, que é difícil escapar a um certo tipo de discurso. Afinal, o jovem país é um dos mais miseráveis do planeta e, para um Nobel da Paz, só fará sentido montar a retórica em cima de um ADN idealista: «Sou o servo dos pobres.» Populista? Talvez, mas podia ser de outro modo?

José Ramos-Horta, 57 anos, acaba de esmagar o seu adversário, o candidato da Fretilin, Lu Olo, com 70% dos votos, na segunda volta das presidenciais timorenses. O sucessor de Xanana Gusmão tem notoriedade internacional, apoio popular e um país em pobreza crónica e que esteve perto da guerra civil.

Agora que sai do Governo, Ramos-Horta propõe-se continuar... a governar. Os seus discursos, entrevistas e comunicados de campanha são um autêntico programa de Executivo, num país onde o chefe de Estado tem poucos poderes constitucionais.

Promessas: 40 milhões de dólares anuais pelas 100 mil pessoas mais pobres da meia-ilha; casas de borla para os funcionários públicos, polícias, militares, médicos e professores das aldeias remotas; 10 milhões de dólares por ano para as duas dioceses católicas; água potável para todas as famílias até 2015; rede de electricidade a baixo custo e 3 mil quilómetros de estradas melhorados.

 

Primeira-dama?

Todas Ramos-Horta quer, acima de tudo, libertar o tesouro do Estado - os 1,3 mil milhões de dólares do petróleo e gás natural - e aplicá-lo de imediato. O parlamento tinha aprovado por unanimidade não mexer nesse dinheiro até as reservas secarem. Para benefício das gerações futuras.

Quem chegar ao Governo nas legislativas de 30 de Junho já sabe que vai ter um Presidente que foi legitimado com promessas sonhadoras. Ele vai reflorestar o país nos próximos 20 anos, vai pagar os livros dos alunos pobres e, até nas suas funções militares, será mais um capelão, «para levantar o moral», do que outra coisa. Está no bom caminho. Para começar, é solteiro: «A primeira-dama são todas as mulheres pobres de Timor.»

O Presidente herda uma situação que, enquanto primeiro-ministro não resolveu: uma cisão nas forças armadas protagonizada por um oficial (major Reinado) que desafia o Estado de Direito e está a monte. Tem o país «ocupado» por tropas maioritariamente australianas, zelando por uma segurança precária. E largos milhares de refugiados internos, paredes-meias com os símbolos (alguns hotéis e restaurantes) do investimento externo na capital.

Ramos-Horta prega boas relações com a Austrália e Indonésia, mas é dentro de portas que tem de trabalhar a reconciliação. Disse que a sua vitória seria o princípio do fim da Fretilin, mas foi o secretário-geral deste partido, Mari Alkatiri, que lhe mereceu o primeiro abraço. Proclama justiça mas passeia em público com um homem, o sargento Rai-lós, que confessou ter recebido armas para eliminar adversários políticos. Com ele, nada é linear. Nem a Constituição. A rever, bem entendido, quanto antes. Com tamanha sede de trabalho, só com reforço de poderes o Presidente poderá governar.

 

Fonte: Visão

Data: 17-05-07

Pag. 98

Por Zito Soares às 12:38
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