Quarta-feira, 16 de Maio de 2007

Importância de ser de Esquerda

João Wengorovius Meneses

 

A geração de 68, que acaba de passar pelo poder político, não foi capaz de mudar o mundo. Mas será que perdeu o optimismo? É corajosa e importante a ligação de ex-políticos à sociedade civil, em vez de se remeterem a um qualquer conselho de administração de luxo. Tony Blair é mais um nome ajuntar à lista.

 

 

Na semana passada, a assinalar os quarenta anos da encíclica "Populorum Progressio", António Guterres esteve em Lisboa, para participar numa conferência sobre "O Bem", na Sé Patriarcal.

 

Quarenta anos depois do alerta de Paulo VI sobre a importância de um modelo de desenvolvimento centrado na pessoa humana, Guterres fez uma avaliação pessimista dos últimos anos: os desequilíbrios na distribuição da riqueza entre ricos e pobres agravaram-se, a Ajuda Externa dos países ricos aos países pobres diminuiu, os desequilíbrios ambientais agravaram-se (sem que a China e os EUA pareçam sensibilizados para o assunto), as negociações de Doha sobre a liberalização do comércio internacional fracassaram, Darfur prova que a comunidade internacional já não tem coragem para sobrepor a soberania dos indivíduos à soberania dos Estados (tal como aconteceu em Timor-Leste), o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional agonizam (e são postos em causa pelo recém criado Banco do Sul), os preconceitos das populações dos países ricos face aos imigrantes mantêm-se (sem que, no entanto, desejem ter filhos ou empregos pouco qualificados).

 

De certo modo, é a confirmação de que a geração de 68, que acaba de passar pelo poder político, não foi capaz de mudar o mundo.

 

Mas será que perdeu o optimismo? Não completamente. No caso de Guterres, passou a acreditar menos na "superestrutura" política mas mais no papel da sociedade civil. De facto, sem alicerces locais fortes os grandes desígnios globais fracassam. Guterres foi mais longe, alertando para a tentação de quem faz vida política de "amar tanto a humanidade que se esquece de amar as pessoas concretas."

 

Guterres tem em comum com Jorge Sampaio, Maria de Lourdes Pintasilgo, Mário Soares, Jimmy Carter e Bill Clinton um percurso da política para a acção social. Os três primeiros sob a égide das Nações Unidas e os três últimos através de fundações pessoais.

 

É corajosa e importante a ligação de ex-políticos à sociedade civil, em vez de se remeterem a um qualquer conselho de administração de luxo. E, desde a semana passada, há mais um nome a juntar à lista dos ex-políticos inconformados: Tony Blair. Blair anunciou o abandono do cargo de primeiro-ministro, ao fim de dez anos de governo, afirmando que "a melhor forma de resistir à atracção do poder é abandonando-o" e de imediato se disponibilizou para trabalhar no domínio das causas humanitárias.

 

Em dez anos de governo, Blair conseguiu quarenta trimestres consecutivos de crescimento económico (quase sempre superiores ao da União Europeia), a descida da taxa de desemprego, a paz na Irlanda do Norte, colocar na agenda internacional o combate à fome em África e às alterações climáticas e contribuir para uma União Europeia mais aberta e reformista. Não terá conseguido concluir a reforma dos sistemas de educação e de saúde públicos, porque o n de Setembro e a invasão do Iraque se atravessaram no caminho. De qualquer modo, depois de Blair, o Reino Unido é um país mais moderno, solidário e liberal.

 

Será coincidência que a maioria das viragens da política para as causas humanitárias pareça vir da esquerda? Há uns anos, Paulo Portas iniciou uma aula na Universidade Católica com a seguinte citação (cito de memória): “As grandes cabeças pensam ideias, as cabeças médias acontecimentos e as pequenas cabeças pensam pessoas”. Seria difícil encontrar melhor caricatura da diferença entre a esquerda e uma certa direita.

 

No domínio das boas notícias relativas ao ano passado, Guterres destacou a diminuição do número de pessoas a viver com menos de um dólar por dia, embora admita que este seja um indicador "mesquinho", e os donativos milionários de empresários de sucesso (por exemplo, Warren Buffett e Richard Branson) para causas humanitárias, mesmo que com alguma vaidade pessoal e interesse fiscal. São boas notícias, claro, mas a mudança dependerá sempre da sociedade civil. Da minha parte, parafraseando Jean Monet quando questionado acerca da Europa, "não estou pessimista nem optimista, mas determinado".

 

Fonte: Diário Económico

Data: 16-05-07

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Por Zito Soares às 21:31
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