Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

Recordar páginas de LOMOFONIA

Um dia, regressarei a Timor. Hei-de lá abrir um restaurante, criar filhos....

De política não quero saber, corrompe

Zito Soares

Timor

 

A independência é um sonho? O maior de todos. Quando tinha 20 anos, não sabia dizer tal palavra em português, mas jurava que o meu corpo e a minha alma lhe pertenciam. Não quero fazer poesia, apenas dizer a verdade. Qual é a tua verdade? A de uma geração que se empenhou por um ideal e descobriu que isso não rima com realidade. É engraçado, o discurso desiludido não te ensombra o sorriso. Claro, sou filho de Timor. Quem um dia sobe a montanha, noutro descerá? E luta até o sonho acontecer. Crescemos ocupados, trancados no medo. Timor tem cheiro de azul e de verde. De mar e de montanha. Provaste o peixe, as mangas? Deram-te um tais?

 

Como escapaste de Díli? Quando entrei na universidade, meteram-me num avião para a Indonésia. Por lá andei, a estudar Direito e a fechar os ouvidos à propaganda. Gostavas? Gostei do que a vida me revelou. Nunca antes vira um prédio nem luzes a anunciarem bebidas que sequer imaginava possíveis. Depois, podia trabalhar no sonho. Sim, os sonhos exigem suor. Às vezes, até sangue.entregamos-lhe ambos. O massacre de Santa Cruz é memória que te acompanha? Que não larga nenhum dos que lá estiveram. Trago-o no braço, no pé esquerdo. Marcas de guerra em quem procura paz? Éramos miúdos, íamos rezar por um colega que havia sido morto... Acabámos sob bala, calharam-me estilhaços. Teve o seu lado bom. Fez o problema de Timor atravessar o oceano.

 

Quanto tempo ficaste na Indonésia? Oh, muito pouco. Participava numa associação de estudantes clandestina, que fazia a ponte entre a resistência política e a armada. Na sombra, que urdiam? Uma manifestação em Jacarta para assinalar o terceiro aniversário do massacre de Santa Cruz. Foi o princípio de uma nova vida?  Ninguém imaginava quanto... Esperava ser preso, batido, ferido... nunca exilado. Conta. Olho para trás e vejo estudantes a sonharem um país. Queríamos o nome de Timor ecoasse no mundo, era essa a nossa arma. O presidente americano estava em Jacarta... Era naquele agora ou nunca. E foi. Escrevemos uma petição para lhe entregar, avançamos até à embaixada. Havia polícias, medo. Os murros eram tão altos...

 

Essa cicatriz no queixo vem de lá? A vedação era afiada, tudo tão rápido. Lembro-me da confusão, apenas 29 conseguiram pular o muro. Depois, acontece o impensável. Vir para Portugal? Foi o único país que nos ofereceu asilo. Nunca pensava viajar para tão longe, pouco sabia de vocês. Nos livros de escola dos meus pais, vira imagens e aprendera a dizer «bom dia». Foi aterrar noutro mundo? Noutro universo! Com frio, discotecas cheias de luzes, homens e mulheres livres. Aprendi a língua, fui estudar para Coimbra. Veio então a independência, a festa... Outra luta? Muitos interesses, poucos ideais. Porque não regressaste ainda? Nada desilude mais que um sonho cumprido.

 

Zito Soares, 36 anos, actualmente a trabalhar num restaurante, em Inglaterra.

 

Texto de Ana Sofia Fonseca

Publicado na revista ÚNICA do Expresso

25 de Abril de 2008

 

 

Por Zito Soares às 23:23
| Comentário
2 comentários:
De Henrique Correia a 28 de Fevereiro de 2009 às 03:09
Só agora descobri esta entrevista, mas valeu a pena a espera porque vejo que o verdadeiro Timor ainda existe nos sonhos dos filhos da terra.

Zito: já deste o teu contributo para a independência, com sangue, suor e lágrimas. Agora também tens direito a um pedaço dela só para ti, para fazeres o que quiseres.

Persegue o teu sonho, mas nunca o apanhes. Mantém vivos os teus sonhos.

P. S. - Essa ideia do restaurante em Timor é fantástica. Quando abrir, avisa. ;)
De Zito a 5 de Março de 2009 às 23:07
Olá Maun Henrique,

Espero que esteja tudo bem consigo. Agradeço o comentário. Espero poder, em breve, regressar a Portugal e combinar um café consigo para partilharmos um pouco das ideias. Acho que preciso sair um pouco da rotina do restaurante...

Até breve
Zito Soares

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