Sexta-feira, 10 de Agosto de 2007

Que Estado para Timor?

A democracia não coloca no poder quem perdeu as eleições. E depois há outra vez violência nas ruas. E se não está nas ruas está latente. Este jovem Estado de Timor, a ser um Estado, é um Estado de Sítio

 

Um mês e meio em Timor-Leste não deu para perceber quase nada de um país que continua à procura, ele próprio, de se perceber. É certo que foi em 2001, quando todas as esperanças eram válidas, quando acreditar era o caminho desejado e nem queríamos ouvir alguns alertas nem algumas atitudes que não conseguíamos entender, mas explicávamos tão-somente que se tratava de uma cultura diferente.

Sim, de facto, há coisas muito diferentes. E se os relatos de sobrevivência, de luta, de morte, de como se ultrapassa a morte de muitos filhos crianças, bebés até, me impressionaram e me marcaram, outros factos também se colaram na memória, no (des)entendimento: que as catanas, por exemplo, não servem só para apanhar fruta e que se usam por dá cá aquela palha, transformando a vida numa coisa com muito pouco valor; que as mulheres são as primeiras a acordar e as primeiras a deitarem-se e são elas, novas e velhas, que, vergadas pelo peso, quase com a cabeça a tocar nos joelhos, transportam todas as cargas possíveis sob o olhar vigilante dos maridos.

Podia falar de muitas outras coisas sobre as mulheres timorenses, podia falar até de uma alta autoridade timorense que, incomodado com as perguntas de uma jornalista, lhe respondeu que ela devia estar em casa a lavar a louça... Sim, podia falar muita coisa, mas seria sempre um olhar ocidental sobre um país do outro lado do mundo, ainda que tenha sido português, ainda que falem português (alguns), ainda que estejam lá muitos portugueses.

Quem está de fora tem, muitas vezes, dificuldades em conter as lágrimas ao ouvir o que viveram, ao perceber como vivem, mas quem lida com tudo na pele até se esquece do que isso é. Choram as mulheres. Que conseguem sempre encontrá-las no fundo da alma. Choram porque não vislumbram solução para um Timor de paz. Se, no início de 2001, já depois do referendo e com a chegada dos primeiros militares portugueses ao território, se queriam esquecer as lágrimas e o olhar vago as substituía, em 2007, elas voltam a saltar. Há esperança? Ou melhor, há esperança para além das orações católicas e fervorosas?

Xanana Gusmão personificava essa esperança, essa união do povo, a força de vontade de ultrapassar a ocupação indonésia e, uma vez auto-determinados, avançarem para o bem-estar e para a felicidade dos timorenses.

Mas isso de ser feliz, lá como cá, tem muito que se lhe diga. E a pessoa que antes era um símbolo de união é hoje um factor de divisão. De ex-Presidente da República passou a primeiro-ministro. Talvez o que sempre desejou. Mas não ganhou as eleições. A maioria dos timorenses queria outro primeiro-ministro. Não é assim a democracia. A democracia não coloca no poder quem perdeu as eleições.

E depois a violência. Outra vez a violência nas ruas. E se não está nas ruas está latente. Este jovem Estado de Timor, a ser um Estado, é um Estado de Sítio.

 

Fonte: Portugal Diário

Data: 09-08-2007

Autor: Luísa Melo

http://www.portugaldiario.iol.pt/noticia.php?id=841596&div_id=3148

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Comentário de José Martins

10-08-2007

 

O tom do seu artigo é muito pessimista, de alguém que de facto esteve aqui pouco tempo. É exagerado no que se refere à mulher timorense, escrava e o marido sentado a fumar, jogar cartas, ou a observar... Talvez o senhor esteve em Africa onde a mulher é realmente uma escrava. Mas Timor não é a África.

É muito certo o que o senhor diz, um mês e meio em Timor não dá para perceber Timor. Temos a impressão de que os meios de comunicação social portuguesa só acordaram agora para falar de Timor, criticar Timor, ver só o negativo de Timor? Onde estavam os senhores jornalistas desde 1975 até 1999? Aqui e ali se ouvia algum protesto, relato de atrocidades cometidas pelo exército invasor... Mas temos a impressão de que Timor foi o grande silêncio para a imprensa portuguesa e que acordou durante o 1999 (talvez para remir culpas e omissões passadas) até ao momento presente... Ficamos indignados ao ler certos comentários ocidentalizados e politicamente programados acerca de Timor... Ou será que só uma certa parte da comunicação social fala de Timor?

Não concordo absolutamente com o que afirma: "a maioria do povo queria outro primeiro-ministro"...qual maioria, a das eleições em que a Fretilin obteve 21 deputados? Não é a maioria, mas uma parte do eleitorado.

Quanto ao que se chegou, e ao estado actual de governo...também não lhe sei explicar. Mas não seria a Fretilin com uma maioria relativa que iria resolver os problemas do Estado de Timor em Estado de sítio...O senhor esteve cá...e não viu nada acerca da presença australina...Sabe, o destino trágico de Timor será, SER UMA COLÓNIA DA INDONÉSIA (já o foi) OU SER UMA COLÓNIA DOS AUSTRALIANAS. Colónia portuguesa foi abandonada esquecida, o tal barco encalhado no oceano que não interessa a ninguém como afirmou um dos vossos políticos.

Só pedia uma coisa, que se informem melhor acerca de Timor, ou não escrevam nada para não criar mais confusão...

 

Por Zito Soares às 19:07
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