Segunda-feira, 23 de Julho de 2007

“Pelo menos, rimo-nos”

Aromaterapia política no concílio dos grandes sacerdotes após legislativas em Timor-Leste

 

Com uma vitória frágil da Fretilin nas legislativas e uma aliança de oposição acenando com maioria parlamentar, os líderes partidários timorenses precisavam do que o Presidente lhes propôs há dois dias: aromaterapia política.

Foi em Dare, na montanha a Sul de Díli, que os grandes sacerdotes da política timorense realizaram quinta-feira um retiro negocial para resolver o impasse pós-eleitoral. José Ramos-Horta convidou os dirigentes para uma comunidade religiosa isolada, com o cheiro doce do maracujá, a pureza do franjipani e o perfume do coentro: a Casa de Mana Lou, ou Irmã Lurdes, fundadora do Instituto Sekular Maun-Alin Iha Kristu (Irmãos e Irmãs em Cristo, ISMAIK).

O sítio é propiciador, com o silêncio tocando nos espanta-espíritos, as orações em surdina atrás das portas, o andar levitado das freiras e dos leigos do ISMAIK, sob as grandes albízias que sombreiam o crescimento do café.

Xanana Gusmão, um dos rostos principais neste retiro de crise, sabe que a singularidade dos grandes homens também se manifesta no poder tocar a brisa dos deuses, quando o ar se torna irrespirável entre a populaça, como acontece muito em Díli. O ex-chefe de Estado timorense vive quase mil metros acima de todos os seus rivais e aliados, em Balíbar, numa encosta fresca e bucólica perto de Dare.

Neste ponto superior, com a baía de Díli em fundo, sentaram-se velhos adversários e velhos companheiros (ou ambas as coisas): Xanana Gusmão (Congresso Nacional de Reconstrução de Timor-Leste), Mari Alkatiri e Francisco Guterres «Lu Olo» (Fretilin), Cornélio Gama «L7» (UNDERTIM), Manuel Tilman (KOTA), além de novos-turcos em ascensão como Fernando «La Sama» de Araújo (Partido Democrático), Arsénio Bano (Fretilin), Fernanda Borges (Partido de Unidade Nacional) e Zacarias da Costa (Partido Social Democrata).

 

Um bulício de silêncio

Por contraste, no exterior, a espera era anónima: dezenas de motoristas e de seguranças, onde o único nome famoso era o de Felisberto Garcia. O veterano agente da Unidade de Intervenção Rápida da Polícia Nacional, após um ano em fuga com o major Alfredo Reinado, deixou a montanha e voltou a Díli para entregar a sua arma e reintegrar o sistema. Felisberto Garcia, acolhido na residência de José Ramos-Horta, integra há duas semanas a segurança pessoal do chefe de Estado.

Na tranquilidade vigiada de Dare, o correr do dia foi apenas cortado por um rapaz com perturbações de comportamento acolhido no ISMAIK. O adolescente, movendo-se como um chimpanzé, surgiu junto à cozinha exterior, com movimentos bruscos, alternando imobilidade completa e espasmos, de bruços, no chão. “É o Marcelo. Ele não costuma ser assim. Ele até fala inglês”, dizia uma mulher da comunidade, atrapalhada. “Foi o Presidente Xanana que o ajudou”, dizia alguém. “Foi o Presidente Ramos-Horta”, emendou outra pessoa perto da criança em espasmos. “Foi a Kirsty”, ex-primeira dama, dizia ainda outra mulher. “Veio de Laga”, no Leste, concordavam os que conhecem Marcelo. No chão, assanhado e exaltado, Marcelo debatia-se à frente de uma mulher que tentava segurá-lo e acalmá-lo.

A poucos metros, os senhores da nação debatiam e debatiam-se com a forma de sair de uma crise em que, de novo, os homens se comportaram como animais. “Pelo menos, rimo-nos uns com os outros. Já é o princípio de alguma coisa”, comentava, num dos intervalos da maratona negocial, o jurista e deputado Manuel Tilman, líder do partido KOTA (União dos Filhos Heróicos das Montanhas de Timor).

 

Novo encontro amanhã

Os filhos das montanhas, e os netos que disputam aos heróis o poder e a legitimidade, não apaziguaram totalmente em Dare os seus desacordos. Novo encontro está marcado para amanhã, no calor poeirento de Díli.

Quanto a Marcelo, «coitado», foi levado para um quarto onde conseguiram acalmá-lo. “Ele não é epiléptico. Não está a deitar espuma pela boca”, explicava uma das religiosas, sabedora de que o desvario dos homens não é sempre doença mas um jogo de espelhos. “Ele apenas se comporta como um animal porque pensa que os outros esperam isso dele”, diagnosticou. No auge da perturbação, o rapaz, de mãos no chão, começou a rosnar a poucos palmos de um cão que lhe rosnava de volta. Nariz contra focinho. Chocante. Foi aí que os seguranças agarraram nele.

 

Fonte: O Primeiro de Janeiro

Data: 22-07-07

http://www.oprimeirodejaneiro.pt/?op=artigo&sec=8f14e45fceea167a5a36dedd4bea2543&subsec=&id=7a5e587c7a86aea645aa33f77a0b958c

Por Zito Soares às 09:51
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