Sexta-feira, 8 de Junho de 2007

Sociedade em rede

Os “mass media” representavam uma forma de comunicação vertical, a rede representa uma forma de comunicação horizontal

 

Num ensaio sobre "Comunicação, poder e contrapoder na sociedade em rede" ("International Journal of Communication" - voLi, 2007), Manuel Castells tenta fazer uma aproximação conceptual à política na era das sociedades em rede. E a questão central que põe é a das relações entre os `media' convencionais e aquilo que ele chama `mass self communication'. Ou seja, entre `media' e Net. Se os `media' não são os depositários do poder, diz Castells, eles representam, todavia, o espaço social onde o poder é deliberado. E se não representam a fonte de conservação do poder, eles representam, todavia, o espaço de construção do poder. De -resto, a política baseia-se nessa comunicação socializada que só os `media' tomam possível.

De tudo isto, todavia, tenho vindo a falar com regularidade nesta página. Ora Castells dá um passo em frente e introduz na análise um novo tipo de espaço mediático não convencional, que se funda num processo de "mass self-communication": "o sistema de comunicação da sociedade industrial", diz ele, "girava em tomo dos `mass media', caracterizados pela distribuição em massa de uma mensagem unidireccional `one-to-many', de um para muitos. O fundamento comunicativo da "sociedade em rede" é constituído pelo sistema global de redes de comunicação horizontal, que compreende a troca multimodal de mensagens interactivas 'many-tomany', ou seja, de muitos para muitos". Se os 'mass media' representavam uma forma de comunicação de tipo vertical, a rede representa uma forma de comunicação de tipo horizontal. Ou seja, mais democrática A questão passa toda por aqui. E ela é tanto mais radical quanto a comunicação vertical dos `mass media' tradicionais tem vindo a constituir-se como uma forma de poder muito semelhante à forma política do poder, concentrando a propriedade dos meios (concentração), organizandose corporativamente (classe-elite) e gerindo o espaço de mercado exclusivamente de forma a reproduzir e a alargar o próprio poder (conquista do consenso, através de uma evolução para o tabloid. Ora as novas redes de 'mass self-communication' vêm, de algum modo, superar esse modelo vertical de comunicação e relativizar esse privilégio de 'gatekeeping' dos `media' tradicionais, que lhes dava um poder total de agendamento da comunicação socializada Privilégio que pertencia às elites mediáticas e, indirectamente, às elites que com elas interagiam organicamente (políticas, económicas, culturais), influenciando o agendamento.

Vejamos a questão de uma forma mais concreta Há tempos, tive ocasião de aqui comentar a reacção algo incomodada do "establishment" mediático em relação ao famoso blog “A nossa opinião”, do MAI de António Costa. O que eu queria sublinhar, nesse artigo, era precisamente o "efeito de ruptura" simbólico sobre esse tradicional privilégio de 'gatekeeping' do 'establishment' mediático. Ruptura tanto mais significativa quanto ela provinha, não de um indivíduo ou de um grupo social "subalterno", mas do próprio âmbito do poder político. A partir desse momento simbólico, reforçado pelo estatuto do agente da ruptura, qualquer cidadão - do porteiro ao ministro - poderia aceder ao espaço público sem pedir autorização aos "guardiões" do templo sagrado da opinião pública Ora, o que acabo de encontrar, agora, no ensaio de um dos mais famosos sociólogos da actualidade, é precisamente a confirmação dessa minha análise. Diz, ele, citando Williains e Delli Carpim: "estamos convencidos, cheios de um certo optimismo, que a erosão do 'gatekeeping' e a emergência de uma multiplicidade de eixos da informação oferecem novas oportunidades aos cidadãos que desejem desafiar o domínio das elites sobre as questões políticas". Em boa verdade, do que se trata, de facto, é de erosão, uma vez que a função dos `media' convencionais persistirá (embora redimensionada) ao lado das emergentes redes de 'mass self-communication': "por consequência", diz Castells, "mais do que à separação entre `old' e `new media', ou à absorção dos segundos pelos primeiros, assistimos ao seu `networking"'. E é verdade que já estamos a assistir a essa interessante interacção entre os media e a Net, onde cada um procura entrar nos domínios do outro, conservando a própria identidade. É um fenómeno a seguir com toda a atenção, e sem nervosismo, porque nele reside o futuro da democracia.

 

Fonte: Diário Económico

Data: 08-06-07

Pág. 44

Autor: João de Almeida Santos

Por Zito Soares às 09:50
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