Sábado, 2 de Junho de 2007

Maçonaria

Atacar cegamente a maçonaria [...] não serve nem os interesses da Igreja Católica, nem os objectivos da Paz. Só o bom entendimento da forma como os cidadãos se organizam permite fazer análises sem tabus e sem extremismos, evitando criar conflitualidade ou disseminar ódios. Como a nossa religião católica é monoteísta, e como as outras grandes religiões são monoteístas, Deus só pode ser o mesmo para todas.

 

Aquando da canonização do seu fundador, em 2002, publiquei, nesta coluna, um artigo sobre a Opus Dei. Depois de um conjunto de afirmações como a de que -"dos poucos membros da Opus Dei que conheci admiro a sua capacidade de trabalho, a sua postura...", concluí que " a Obra pode parecer para nós, que não a conhecemos por dentro, uma coisa tétrica. Mas não tenho notícia de que tenha trazido mal ao mundo. Acredito mesmo que terá feito muito mais bem do que mal".

Como é visível, pelo próprio facto de escrever, interesso-me por questões relativas à organização e evolução da Sociedade. As mais visíveis e as menos visíveis, até porque estas últimas, muitas vezes, permitem um melhor entendimento de como as Sociedades se formatam do que as que todos julgamos visíveis. Só o bom entendimento da forma como os cidadãos se organizam permite fazer análises sem tabus e sem extremismos, evitando criar conflitualidade ou disseminar ódios. Bem nos bastam os problemas do fundamentalismo islâmico para que nos possamos permitir o luxo de, na Sociedade Ocidental, criarmos ou alimentarmos conflitualidades e ódios entre nós, particularmente os baseados em puros preconceitos. Quando aqui publiquei o artigo sobre a Opus Dei, era minha intenção escrever um outro, sobre a Maçonaria. Demorou, mas a leitura do DN de 28.05.07, estimulou-me a escrevê-lo agora. Naquele diário, o Bispo de Aveiro afirma, com uma inadequada carga de preconceito, que "a Maçonaria portuguesa está a aparecer de novo, com algum espírito de Carbonária, eivada de um acirrado laicismo..." e ainda que "aquele movimento está empenhado em fechar a Igreja Católica na sacristia, em ignorar os valores Cristãos, em fazer tábua rasa de uma cultura milenária e em mudar de sentido das instituições que dão consistência à sociedade".

O Bispo de Aveiro proferiu um ataque cego, sem rigor. De facto, não há uma mas duas Maçonarias. A irregular e a regular. A irregular é influente em Portugal, França e Bélgica. A regular é internacional, tem mais de 10 milhões de membros, é Deísta, não discute, nas suas reuniões, nem política nem religião, e é condição sine qua non para que alguém dela se possa tornar membro que acredite firmemente num ente superior. Como a nossa religião católica é monoteísta, e como as outras grandes religiões são monoteístas, Deus só pode ser o mesmo para todas. Duas coisas iguais a uma terceira são iguais entre si. Uma abordagem diferente, em vez de aproximar os Homens e promover a paz só pode incitar ao ódio e à violência. Não foi esse o ensinamento de Cristo

É verdade que a maçonaria irregular tem ainda, em Portugal um peso maior, em número de membros e em influência política, que a maçonaria regular. Contrariamente às reuniões da maçonaria regular, onde uma tal discussão é proibida, nas reuniões da maçonaria irregular discute-se política e religião e há, por isso, um entrosamento com a influência política praticada. Há, também sem dúvida, na maçonaria irregular, uma tendência jacobina e anticlerical mas, tão longe quanto estou informado, há também, naquela maçonaria, outras tendências e muitos homens de fé, que nela procuram um aperfeiçoamento pessoal que noutras instituições não encontram. Todas as organizações de homens têm suas ovelhas tresmalhadas. Mas atacar cegamente a maçonaria, sem distinguir o carácter profundamente Deísta da regular e aqueles, muitos, que, na irregular, não são jacobinos nem anticlericais e têm vontade de ajudar o mundo a tornar-se melhor, dentro dos princípios da democracia, da tolerância, da solidariedade e dá esperança não serve nem os interesses da Igreja Católica, nem os objectivos da Paz. O ilustre abade Correia da Serra, antigo ‘maçou’ Português, por todos os do seu tempo reconhecido como um Homem exemplar, não tinha a mesma opinião sobre a Maçonaria que o Senhor Bispo de Aveiro. Será que daqui por dois séculos os Portugueses de então terão do Senhor Bispo a mesma lembrança que os Portugueses de hoje têm do Abade que viveu há 2 séculos?

Os desafios que se põem ao Ocidente são demasiado grandes e todos somos poucos para juntos os afrontarmos. Porquê, fomentar ódios deforma tão superficial?

 

Fonte: Diário Económico

Data: 01-06-07

Pág. 40

Autor: António Neto da Silva

Por Zito Soares às 08:43
| Comentário
1 comentário:
De Anónimo a 3 de Junho de 2007 às 13:55
isto sim é sério e honesto.
que pena os aveirenses terem um bispo tão tão asno

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